sexta-feira, 3 de julho de 2026

 


Política e Idolatria

Olavo Pereira

Adaptado em 3 de Julho de 2026

 

Anos atrás recebi de Olavo Silveira Pereira este artigo, escrito à mão e guardado em minhas pastas. Agora, decidi digitalizar certas cartas e documentos e me deparei com este excelente artigo.

A religião não é prática exclusiva daqueles que, certos ou errados, de acordo com os seus conceitos ou tradições, pretendem servir e adorar o seu Deus e prestar-lhe culto. Tudo envolve religião. Tudo o que envolve o espírito do homem e fé, envolve religião. A coleção, “História de Las Religiones”, da Editorial Marin apresenta as seguintes religiões da história humana: Animismo e totemismo, mitologia e islamismo, taoismo, confucionismo, xintoísmo, ateísmo e manifestações para-religiosas.

Demócrito (460-371 a. C) foi o criador da primeira doutrina materialista.  Ateísmo fazia parte de sua tese. Epicuro, fundador do epicurismo, doutrina que dizia: “comamos e bebamos porque amanhã morreremos” foi o maior discípulo de Demócrito. Depois da morte de Epicuro, sua escola adquiriu um caráter de cunho religioso. Pregava que os homens vivem aterrorizados por uns deuses, que ele sabe, estão ausentes em seu destino, e devem, portanto, afirmar-se em si mesmos, esquecendo-se dos deuses.

Tito Lucrécio Caro (98-55 a. C) pregava que o homem é ignorante; da ignorância nasce o temor e do temor uns deuses; e vive atormentado com a ideia de que esses deuses podem se enfurecer. Pregava que em nome da religião se cometiam os mais horrendos crimes; por isso, os homens necessitam ficar longe da religião.

Durante toda a idade média a igreja controlou a cultura e os costumes europeus. Esses laços foram enfraquecendo, e a imagem de Deus foi-se apagando. No renascimento começa a luta entre ciência e religião. Diversos cientistas, Berzélio, Mitscherlich e outros debochavam da tese criacionista bíblica, afirmando que a geração espontânea fora provada. Em 2 de março de 1875 um tal senhor Pouchet, adepto daqueles cientistas, em público, colocou uma vasilha com água. Em alguns dias a água germinava de vermes vivos. Era a vitória da ciência sobre a religião. Luis Pasteur, imediatamente, levou à praça pública uma vasilha de água esterilizada. Os cientistas da época, a imprensa, enfim, toda a Europa esperava o surgimento dos seres vivos na vasilha de Pasteur. Nada aconteceu. No dia 30 de março, Pasteur explicou então, que não havia geração espontânea, e que as manifestações de vidas observadas não eram mais do que efeito da putrefação. A Bíblia triunfou sobre a ciência.

Mas, o que o homem queria na renascença era libertinagem. Para isso era preciso destruir a Bíblia. Do século XVI ao século XIX proliferaram os libertinos. Foram eles: Le Vayer (1588-1672), preceptor de Luiz XIV. Ensinava que das coisas seguras, a mais segura é duvidar. Pierre Bayle (1647-1706), filho de um presbítero huguenote, se converteu ao catolicismo; estudou filosofia, e pregava tão violentamente contra o fanatismo religioso que chegou a ser considerado ateu, pois duvidava da existência de Deus. Bacon fundou a escola racionalista na Inglaterra (1561-1626). O racionalismo procura banir do homem a ideia do sobrenatural e da revelação.

Thomas Hobbes (1588-1679), discípulo de Bacon, escreveu a obra, O Leviatã, aludindo ao monstro de fala a Escritura, e que ele aplica ao Estado como negador da individualidade, e, portanto, devorador dos seres humanos. O homem devora o próprio homem como lobo. Assim, numa insegurança constante, os homens transferem seus direitos ao Estado, mudando a sua condição natural para uma condição civil. O remédio é pior que a enfermidade, e o novo e enorme poder nascente, acaba por engoli-los. A segurança que o homem deveria receber de Deus, pelo ateísmo é transferido para o Estado, Leviatã; logo, religião e política estão intimamente ligadas. A palavra de Deus revela um fato idêntico.

“Era Samuel, já velho, e constituiu a seus filhos como juízes em seu lugar. Estes, porém, não eram como Samuel e o povo pediu um rei. Deus, então, disse: Não é a ti que rejeitam, Samuel, mas a mim”. As raízes do ateísmo brotaram no coração do povo, e Deus avisou pela boca de Samuel, de que maneira o povo ia ser devorado pelo estado que se formava (1 Sm 8.1-20).

John Locke (1632-1704), filósofo, médico e cientista, político ativo do seu tempo, defendia que a ideia que o homem tem de Deus, tem origem nas sensações. Sendo assim, todas as imagens de Deus, mesmo as contraditórias, tem o mesmo direito de serem admitidas. David Hume (1711-1776) pregava que tudo depende das sensações, assim, não devemos nos preocupar com o plano religioso: pregava o ateísmo como forma de libertação. Segundo D’Holbach (1723-1789), não existe Deus nem alma, nem liberdade, nem felicidade. Helvetius (1715-1771), seguidor de D’Holbach , explicou que o fundamental para a explicação do homem é o conceito de interesse. E um impulso que o leva a obter o prazer e evitar a dor. Para Helvetius, o importante é conseguir que o interesse individual coincida com o coletivo.

Diderot (1713-1784), a princípio deísta, passou para o ateísmo de Demócrito, Epicuro e Lucrécio, que chegaram a ele através dos libertinos do século XVII. O temor engendra no homem a ideia de Deus: A vida é uma cadeia de ações e reações. Nascer, viver e morrer são mudanças de formas.

Voltaire (1694-1778). Não era ateu, mas odiava a religião. Combatia os dois lados e dizia: “Se Deus não existisse seria preciso inventá-lo”. Toda sociedade se derruba pelo ateísmo. Nada há que impeça o homem sem Deus de fazer o que lhe apetece e é impossível colocar em acordo os apetites de todos. Voltaire concebeu um Deus que nada tem a ver com religião, que chama de “infame” e que precisava ser destruída.

Na Alemanha, Karl Vogt (1817-1875). Materialista afirmava que as histórias bíblicas eram contos de fadas. Ernest Haeckel (1834-1919) era discípulo de Darwin, e ambos pregavam que o dualismo entre o material e o espiritual é falho. Natureza é evolução. Fundou em 1911 em Hamburgo a Sociedade Monista Internacional sob sua presidência.

Hegel (1770-1831). Educado no mais estrito protestantismo, tornou-se ateu. Para ele Deus é o Espírito absoluto, e que, não existe, e está em vias de formação. Esse Deus seria a ideia, a razão, uma realidade lógica. Para ele religião e filosofia andam de mãos dadas.

Carl Marx (1818-1883). Conheceu Engels em 1844. Juntos fundaram a liga dos comunistas com um programa político e filosófico. Em 1848 foi o criador do marxismo. Para Marx a justiça do céu deve ceder seu posto para a terra; a crítica da religião a do direito e a crítica da teologia à política. Para ele a religião é alienação. É o homem que faz a religião e não a religião ao homem. A religião é uma realização fantástica do ser humano porque este não possui a verdadeira realidade.

A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real, e de outro a contestação contra a miséria real. A religião é o ópio do povo.

A religião não é mais que uma superestrutura de um mundo alienado, e desaparecerá por si mesma quando as condições da vida prática e cotidiana do homem sejam autênticas. As implicações sócio-político-econômicas exigem a supressão da necessidade de Deus.

Concluímos pelo ateísmo marxista, que a política se opõe a Deus e a religião. Por outro lado, vimos também que a evolução do pensamento filosófico e científico foi evoluindo para o materialismo e o ateísmo, exercendo forte influência nos movimentos políticos da história até os nossos dias. É óbvio que os movimentos antirreligiosos nasceram como reação frente a péssima participação da igreja romana na política entre os diversos países europeus, manipulando monarcas na sua boa fé, mercadejando a fé e promovendo furiosas perseguições. É claro, que tal igreja não se enquadra nos planos de Deus. Surgiu a Reforma, e o protestantismo se tornou mais tarde a ideologia de uma classe burguesa. O calvinismo, por exemplo, organizando a igreja de uma maneira verdadeiramente democrática e republicana ajuda a burguesia a tomar o poder de Genebra, Holanda e Escócia.

Lênin (1870-1924). Ateu por convicção, inspirou-se nas ideias de Engels. Para ele existe incompatibilidade entre ciência e religião. A verdade científica exclui a verdade religiosa. Se há uma verdade objetiva, é inútil a subjetiva. Se há uma verdade objetiva é inútil a subjetiva. Gritava em altos brados, “abaixo a religião e viva o ateísmo”. Pregava o humanismo ateu e dizia: “É preciso lutar contra os medos criados pelos deuses, contra o mundo da miséria, da desgraça e da fome, e contra todos os séquitos de desdita, que encerra o capitalismo”.

Nietzche (1844-1900). Sua doutrina está concentrada na frase, “Deus está morto, os homens o assassinaram”. Seu ateísmo está contido nesta frase. Porque Deus está morto, o homem alienado descobre agora a sua liberdade criadora. Ele condenou a teocracia socrática, que os instintos devem se submeter à tirania da razão. Combater os instintos, dizia ele, é a fórmula da decadência, pois a felicidade se confunde cm os instintos.

Condenou o cristianismo, afirmando que os ensinos de Paulo se nutriram nas ideias de Sócrates. Profetizou o fim do cristianismo no seu livro, “Crepúsculo dos Deuses”. Pregava o niilismo, isto é, a redução de tudo ao nada e a negação de toda crença.

Jean Paulo Sartre (1905-1980), fundador do existencialismo ateu: “O homem sempre com seu passado de mitos e de enganos enfrenta a verdade”. A filosofia existencialista repousa sobre este fato. Soren Kierkegaard (1813-1855), Martin Heidegger e Jean Paulo Sartre, os dois últimos são contemporâneos. Sartre nega a existência de Deus. Uma vez liberta a alma do homem, os deuses nada podem contra ela. Todos são livres, logo, tudo é permitido. Não há regras porque não há quem as dê. É o existencialismo.

Todos os pensadores e filósofos são respeitados, por mais absurdas que sejam suas teorias. São admirados e estudados nas universidades, nas cadeiras de sociologia, filosofia, pedagogia etc. Todos são aceitos e combatem a religião, especialmente o cristianismo e a Bíblia. E todos esses pensadores exercem grande influência na política por tratar do homem e seu comportamento social. A religião se opõe à política e a política exclui a religião, logo, política também é religião.

Quem afirma é a própria Bíblia na história de Nabucodonosor. Este mandou esculpir uma estátua de ouro de vinte e sete metros de altura e dois metros e setenta de largura, para que todo o povo se ajoelhasse prestando-lhe culto (Dn 3). No capítulo seis do mesmo livro, lemos que príncipes e presidentes do reino de Dario, para destruir Daniel, conseguiram que um decreto do rei proibisse qualquer um de fazer petições a Deus, mas somente ao próprio rei, que no caso ocupa o lugar de Deus, logo, política é religião.

Os três moços não se dobraram diante de Nabucodonosor, mas hoje os crentes se dobram diante da política e de Mamon, assentando-se na cátedra pestilenta. Daniel fez petição a Deus e não ao rei, mas hoje os políticos crentes andam pelos corredores da Assembleia Legislativa e Câmara Federal fazendo petições em favor daqueles que os elegeram. Para estes crentes, Nietzsche está certo, já que Deus não atende mais, vamos a Dario ou Nabucodonosor. Serão devorados pelos leões estatais.

Voltemos mais um pouco na história. No Egito era celebrado o culto dinástico por milênios, que era prestar culto a faraó. Ptolomeu, após a morte de Alexandre Magno, se apoderou dos restos mortais de um faraó e mandou erigir um monumental sepulcro em Alexandria, estabelecendo o culto oficial para todos os habitantes do reino helenístico do Egito. Dali passou às demais monarquias formadas pela dissolução do reino de Alexandre. A divinização do rei morto passou aos reis vivos. O culto dinástico foi assim estabelecido em todo o reino helenístico. Os reis eram considerados divinos porque se mostravam salvadores e benfeitores do povo. Fundaram cidades e reconstruíram as cidades arrasadas pela guerra. O povo escravizado, empobrecido, na sua miséria, via no rei uma esperança, um salvador.

César Otaviano, sobrinho de Julio César que teve poder supremo sobre a república por 44 anos (30 a. C – 14 d. C). Conseguiu que o senado lhe conferisse o título de Pontífice Supremo (supremo sacerdote). Recebeu o nome de Augusto e os poderes civis e religiosos. Era reconhecido diante do povo, por manobras políticas. Jesus era reconhecido pelo povo e nunca apelou aos políticos.

As maiores perseguições aos cristãos, até hoje são feitas por políticos que se acham deuses.

Maquiavel em O Príncipe dá o seguinte conselho aos governantes:

1.     Zelem apenas pelos seus próprios interesses.

2.     Não honrem a mais ninguém além de você mesmo.

3.     Façam o mal, mas finjam que fazem o bem.

4.     Cobicem e procurem obter tudo o que puder.

5.     Sejam miseráveis.

6.     Sejam brutais.

7.     Logrem o próximo toda vez que puderem.

8.     Matem os seus inimigos e, se necessário os seus amigos.

9.     Usem da força, em vez da bondade ao tratar com o próximo.

10.  Pensem exclusivamente na guerra. 

 

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