sexta-feira, 3 de julho de 2026

 


Política e Idolatria

Olavo Pereira

Adaptado em 3 de Julho de 2026

 

Anos atrás recebi de Olavo Silveira Pereira este artigo, escrito à mão e guardado em minhas pastas. Agora, decidi digitalizar certas cartas e documentos e me deparei com este excelente artigo.

A religião não é prática exclusiva daqueles que, certos ou errados, de acordo com os seus conceitos ou tradições, pretendem servir e adorar o seu Deus e prestar-lhe culto. Tudo envolve religião. Tudo o que envolve o espírito do homem e fé, envolve religião. A coleção, “História de Las Religiones”, da Editorial Marin apresenta as seguintes religiões da história humana: Animismo e totemismo, mitologia e islamismo, taoismo, confucionismo, xintoísmo, ateísmo e manifestações para-religiosas.

Demócrito (460-371 a. C) foi o criador da primeira doutrina materialista.  Ateísmo fazia parte de sua tese. Epicuro, fundador do epicurismo, doutrina que dizia: “comamos e bebamos porque amanhã morreremos” foi o maior discípulo de Demócrito. Depois da morte de Epicuro, sua escola adquiriu um caráter de cunho religioso. Pregava que os homens vivem aterrorizados por uns deuses, que ele sabe, estão ausentes em seu destino, e devem, portanto, afirmar-se em si mesmos, esquecendo-se dos deuses.

Tito Lucrécio Caro (98-55 a. C) pregava que o homem é ignorante; da ignorância nasce o temor e do temor uns deuses; e vive atormentado com a ideia de que esses deuses podem se enfurecer. Pregava que em nome da religião se cometiam os mais horrendos crimes; por isso, os homens necessitam ficar longe da religião.

Durante toda a idade média a igreja controlou a cultura e os costumes europeus. Esses laços foram enfraquecendo, e a imagem de Deus foi-se apagando. No renascimento começa a luta entre ciência e religião. Diversos cientistas, Berzélio, Mitscherlich e outros debochavam da tese criacionista bíblica, afirmando que a geração espontânea fora provada. Em 2 de março de 1875 um tal senhor Pouchet, adepto daqueles cientistas, em público, colocou uma vasilha com água. Em alguns dias a água germinava de vermes vivos. Era a vitória da ciência sobre a religião. Luis Pasteur, imediatamente, levou à praça pública uma vasilha de água esterilizada. Os cientistas da época, a imprensa, enfim, toda a Europa esperava o surgimento dos seres vivos na vasilha de Pasteur. Nada aconteceu. No dia 30 de março, Pasteur explicou então, que não havia geração espontânea, e que as manifestações de vidas observadas não eram mais do que efeito da putrefação. A Bíblia triunfou sobre a ciência.

Mas, o que o homem queria na renascença era libertinagem. Para isso era preciso destruir a Bíblia. Do século XVI ao século XIX proliferaram os libertinos. Foram eles: Le Vayer (1588-1672), preceptor de Luiz XIV. Ensinava que das coisas seguras, a mais segura é duvidar. Pierre Bayle (1647-1706), filho de um presbítero huguenote, se converteu ao catolicismo; estudou filosofia, e pregava tão violentamente contra o fanatismo religioso que chegou a ser considerado ateu, pois duvidava da existência de Deus. Bacon fundou a escola racionalista na Inglaterra (1561-1626). O racionalismo procura banir do homem a ideia do sobrenatural e da revelação.

Thomas Hobbes (1588-1679), discípulo de Bacon, escreveu a obra, O Leviatã, aludindo ao monstro de fala a Escritura, e que ele aplica ao Estado como negador da individualidade, e, portanto, devorador dos seres humanos. O homem devora o próprio homem como lobo. Assim, numa insegurança constante, os homens transferem seus direitos ao Estado, mudando a sua condição natural para uma condição civil. O remédio é pior que a enfermidade, e o novo e enorme poder nascente, acaba por engoli-los. A segurança que o homem deveria receber de Deus, pelo ateísmo é transferido para o Estado, Leviatã; logo, religião e política estão intimamente ligadas. A palavra de Deus revela um fato idêntico.

“Era Samuel, já velho, e constituiu a seus filhos como juízes em seu lugar. Estes, porém, não eram como Samuel e o povo pediu um rei. Deus, então, disse: Não é a ti que rejeitam, Samuel, mas a mim”. As raízes do ateísmo brotaram no coração do povo, e Deus avisou pela boca de Samuel, de que maneira o povo ia ser devorado pelo estado que se formava (1 Sm 8.1-20).

John Locke (1632-1704), filósofo, médico e cientista, político ativo do seu tempo, defendia que a ideia que o homem tem de Deus, tem origem nas sensações. Sendo assim, todas as imagens de Deus, mesmo as contraditórias, tem o mesmo direito de serem admitidas. David Hume (1711-1776) pregava que tudo depende das sensações, assim, não devemos nos preocupar com o plano religioso: pregava o ateísmo como forma de libertação. Segundo D’Holbach (1723-1789), não existe Deus nem alma, nem liberdade, nem felicidade. Helvetius (1715-1771), seguidor de D’Holbach , explicou que o fundamental para a explicação do homem é o conceito de interesse. E um impulso que o leva a obter o prazer e evitar a dor. Para Helvetius, o importante é conseguir que o interesse individual coincida com o coletivo.

Diderot (1713-1784), a princípio deísta, passou para o ateísmo de Demócrito, Epicuro e Lucrécio, que chegaram a ele através dos libertinos do século XVII. O temor engendra no homem a ideia de Deus: A vida é uma cadeia de ações e reações. Nascer, viver e morrer são mudanças de formas.

Voltaire (1694-1778). Não era ateu, mas odiava a religião. Combatia os dois lados e dizia: “Se Deus não existisse seria preciso inventá-lo”. Toda sociedade se derruba pelo ateísmo. Nada há que impeça o homem sem Deus de fazer o que lhe apetece e é impossível colocar em acordo os apetites de todos. Voltaire concebeu um Deus que nada tem a ver com religião, que chama de “infame” e que precisava ser destruída.

Na Alemanha, Karl Vogt (1817-1875). Materialista afirmava que as histórias bíblicas eram contos de fadas. Ernest Haeckel (1834-1919) era discípulo de Darwin, e ambos pregavam que o dualismo entre o material e o espiritual é falho. Natureza é evolução. Fundou em 1911 em Hamburgo a Sociedade Monista Internacional sob sua presidência.

Hegel (1770-1831). Educado no mais estrito protestantismo, tornou-se ateu. Para ele Deus é o Espírito absoluto, e que, não existe, e está em vias de formação. Esse Deus seria a ideia, a razão, uma realidade lógica. Para ele religião e filosofia andam de mãos dadas.

Carl Marx (1818-1883). Conheceu Engels em 1844. Juntos fundaram a liga dos comunistas com um programa político e filosófico. Em 1848 foi o criador do marxismo. Para Marx a justiça do céu deve ceder seu posto para a terra; a crítica da religião a do direito e a crítica da teologia à política. Para ele a religião é alienação. É o homem que faz a religião e não a religião ao homem. A religião é uma realização fantástica do ser humano porque este não possui a verdadeira realidade.

A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real, e de outro a contestação contra a miséria real. A religião é o ópio do povo.

A religião não é mais que uma superestrutura de um mundo alienado, e desaparecerá por si mesma quando as condições da vida prática e cotidiana do homem sejam autênticas. As implicações sócio-político-econômicas exigem a supressão da necessidade de Deus.

Concluímos pelo ateísmo marxista, que a política se opõe a Deus e a religião. Por outro lado, vimos também que a evolução do pensamento filosófico e científico foi evoluindo para o materialismo e o ateísmo, exercendo forte influência nos movimentos políticos da história até os nossos dias. É óbvio que os movimentos antirreligiosos nasceram como reação frente a péssima participação da igreja romana na política entre os diversos países europeus, manipulando monarcas na sua boa fé, mercadejando a fé e promovendo furiosas perseguições. É claro, que tal igreja não se enquadra nos planos de Deus. Surgiu a Reforma, e o protestantismo se tornou mais tarde a ideologia de uma classe burguesa. O calvinismo, por exemplo, organizando a igreja de uma maneira verdadeiramente democrática e republicana ajuda a burguesia a tomar o poder de Genebra, Holanda e Escócia.

Lênin (1870-1924). Ateu por convicção, inspirou-se nas ideias de Engels. Para ele existe incompatibilidade entre ciência e religião. A verdade científica exclui a verdade religiosa. Se há uma verdade objetiva, é inútil a subjetiva. Se há uma verdade objetiva é inútil a subjetiva. Gritava em altos brados, “abaixo a religião e viva o ateísmo”. Pregava o humanismo ateu e dizia: “É preciso lutar contra os medos criados pelos deuses, contra o mundo da miséria, da desgraça e da fome, e contra todos os séquitos de desdita, que encerra o capitalismo”.

Nietzche (1844-1900). Sua doutrina está concentrada na frase, “Deus está morto, os homens o assassinaram”. Seu ateísmo está contido nesta frase. Porque Deus está morto, o homem alienado descobre agora a sua liberdade criadora. Ele condenou a teocracia socrática, que os instintos devem se submeter à tirania da razão. Combater os instintos, dizia ele, é a fórmula da decadência, pois a felicidade se confunde cm os instintos.

Condenou o cristianismo, afirmando que os ensinos de Paulo se nutriram nas ideias de Sócrates. Profetizou o fim do cristianismo no seu livro, “Crepúsculo dos Deuses”. Pregava o niilismo, isto é, a redução de tudo ao nada e a negação de toda crença.

Jean Paulo Sartre (1905-1980), fundador do existencialismo ateu: “O homem sempre com seu passado de mitos e de enganos enfrenta a verdade”. A filosofia existencialista repousa sobre este fato. Soren Kierkegaard (1813-1855), Martin Heidegger e Jean Paulo Sartre, os dois últimos são contemporâneos. Sartre nega a existência de Deus. Uma vez liberta a alma do homem, os deuses nada podem contra ela. Todos são livres, logo, tudo é permitido. Não há regras porque não há quem as dê. É o existencialismo.

Todos os pensadores e filósofos são respeitados, por mais absurdas que sejam suas teorias. São admirados e estudados nas universidades, nas cadeiras de sociologia, filosofia, pedagogia etc. Todos são aceitos e combatem a religião, especialmente o cristianismo e a Bíblia. E todos esses pensadores exercem grande influência na política por tratar do homem e seu comportamento social. A religião se opõe à política e a política exclui a religião, logo, política também é religião.

Quem afirma é a própria Bíblia na história de Nabucodonosor. Este mandou esculpir uma estátua de ouro de vinte e sete metros de altura e dois metros e setenta de largura, para que todo o povo se ajoelhasse prestando-lhe culto (Dn 3). No capítulo seis do mesmo livro, lemos que príncipes e presidentes do reino de Dario, para destruir Daniel, conseguiram que um decreto do rei proibisse qualquer um de fazer petições a Deus, mas somente ao próprio rei, que no caso ocupa o lugar de Deus, logo, política é religião.

Os três moços não se dobraram diante de Nabucodonosor, mas hoje os crentes se dobram diante da política e de Mamon, assentando-se na cátedra pestilenta. Daniel fez petição a Deus e não ao rei, mas hoje os políticos crentes andam pelos corredores da Assembleia Legislativa e Câmara Federal fazendo petições em favor daqueles que os elegeram. Para estes crentes, Nietzsche está certo, já que Deus não atende mais, vamos a Dario ou Nabucodonosor. Serão devorados pelos leões estatais.

Voltemos mais um pouco na história. No Egito era celebrado o culto dinástico por milênios, que era prestar culto a faraó. Ptolomeu, após a morte de Alexandre Magno, se apoderou dos restos mortais de um faraó e mandou erigir um monumental sepulcro em Alexandria, estabelecendo o culto oficial para todos os habitantes do reino helenístico do Egito. Dali passou às demais monarquias formadas pela dissolução do reino de Alexandre. A divinização do rei morto passou aos reis vivos. O culto dinástico foi assim estabelecido em todo o reino helenístico. Os reis eram considerados divinos porque se mostravam salvadores e benfeitores do povo. Fundaram cidades e reconstruíram as cidades arrasadas pela guerra. O povo escravizado, empobrecido, na sua miséria, via no rei uma esperança, um salvador.

César Otaviano, sobrinho de Julio César que teve poder supremo sobre a república por 44 anos (30 a. C – 14 d. C). Conseguiu que o senado lhe conferisse o título de Pontífice Supremo (supremo sacerdote). Recebeu o nome de Augusto e os poderes civis e religiosos. Era reconhecido diante do povo, por manobras políticas. Jesus era reconhecido pelo povo e nunca apelou aos políticos.

As maiores perseguições aos cristãos, até hoje são feitas por políticos que se acham deuses.

Maquiavel em O Príncipe dá o seguinte conselho aos governantes:

1.     Zelem apenas pelos seus próprios interesses.

2.     Não honrem a mais ninguém além de você mesmo.

3.     Façam o mal, mas finjam que fazem o bem.

4.     Cobicem e procurem obter tudo o que puder.

5.     Sejam miseráveis.

6.     Sejam brutais.

7.     Logrem o próximo toda vez que puderem.

8.     Matem os seus inimigos e, se necessário os seus amigos.

9.     Usem da força, em vez da bondade ao tratar com o próximo.

10.  Pensem exclusivamente na guerra. 

 

 


O Sumiço dos Pardais!

João A. de Souza Filho

Julho de 2026

Para onde foram os pardais? Eles que ficavam discutindo, conversando e brigando na copa dos arvoredos ao anoitecer, desapareceram. Sumiram das ruas e das praças do bairro onde resido.  Sumiram das redondezas. Pararam com sua algazarra.

Andei pelo bairro para ver se os encontrava mexendo em alguma bosta de cavalo, mas, não existem mais cavalos puxando carroças no meu bairro. Foram proibidas de circular por aqui. Com seus voos rasantes e desafiadores vinham se alimentar das migalhas nos pátios e, ariscos, fugiam apressadamente. Alguns deles eram conhecidos meus, pois sempre que eu sacudia a toalha com farelo de pão, eles estavam à espreita sobre o muro do pátio, ávidos por comerem. Mas eles sumiram! A alegria do anoitecer, enquanto se aninhavam na copa das árvores cessou.   

Caminhando encontro o João de Barro, gritando, em pares, enquanto constrói sua casa no alto dos postes, sempre acompanhado de sua parceira. Os sabiás de peito amarelo, escondidos às sombras das árvores – parecem que não gostam do sol, e seus primos, os sabiás da praia com seu canto melodioso enchem o ar de melodias.

Vejo os canarinhos da terra, as rolinhas, os pica-paus com seus gritos de felicidade por encontrarem cupins nas árvores, ah! E os quero-queros sempre denunciando a presença de alguém se aninhando debaixo do velho pé de manga. Os tico-ticos vão e voltam, sempre com a mesma súplica: “tio-tio”, dizem eles do alto das árvores, escondendo-se por entre as ramadas. E os bem-te-vis, sempre gritando, acusando que me viram, também andam por aqui, mas os pardais sumiram! E os pintassilgos e os beija-flores que sempre aparecem na primavera voam alegremente de flor em flor. Ouço o grito dos carcarás à busca de presa, mas nada dos pardais. As caturritas voam em bandos no bairro. Quem sabe são elas as culpadas!

Já sei. As aves foram substituídas pelos “pardais” que multam nas ruas, avenidas e rodovias! Esses nunca desaparecem e se tornaram a praga do século XXI. Não dormem!

Lembrei-me do que fez o líder Mao na China em 1958: Ordenou que os chineses acabassem com os mosquitos, ratos, moscas e pardais. Esses comiam sementes, frutas, grãos e eram os vilões da baixa produtividade. 800 mil pardais foram mortos em três dias apenas em Pequim. Resultado: Insetos predadores como os gafanhotos devastaram as enormes plantações da China e trinta e seis milhões de pessoas morreram de fome no período entre 1958-1962. Acabaram com os pardais, veio a fome.

Que voltem os pardais! Afinal, governos ditatoriais nos veem apenas como um pardal que precisa ser eliminado!

sábado, 16 de maio de 2020


Como Conheci Otoniel e Oziel

O ônibus do Expresso Minuano gemia subindo pela BR-116 em direção a São   Paulo. As curvas fechadas da rodovia pela serra gaúcha entre Porto Alegre e Vacaria, disputando espaço entre caminhões e automóveis faria a viagem monótona e sonolenta não fossem os penhascos e rios que corriam pelo fundo dos vales que amedrontavam, e ao mesmo tempo encantava os passageiros. A fumaça dos cigarros impregnava o ônibus e se misturava à fumaça negra dos motores dos potentes caminhões. Depois de vinte e cinco horas de viagem chegamos ao terminal de passageiros em São Paulo, um pequeno local, porque a grande estação rodoviária atual era apenas um projeto no papel. Eu tinha apenas dezessete anos de idade e corria atrás de um sonho: Preparar-me para o ministério de pregação da Palavra de Deus.
Quando Deus dá um sonho, até as hienas fogem de você!
A partir de São Paulo, depois de duas horas de espera tomei um ônibus da empresa Pássaro Marrom com destino a Pindamonhangaba. Na rodoviária da cidade de Pinda, em 1964, os táxis eram charretes e raríssimos os automóveis. Sacolejando pela Rua São João Bosco entre casarios antigos e loteamentos novos, chegamos ao antigo prédio em que se instalara o IBAD – Instituto Bíblico das Assembleias de Deus – em 1958. O endereço nunca se apagará da memória: Rua São João Bosco, 1114.
Era 25 de março de 1964. Dali a alguns dias as aulas teriam início, mas houve um atraso devido a demora do pastor Kolenda e esposa Doris que estavam nos Estados Unidos.
Logo a turma do segundo ano chegou e entre eles estava Otoniel Moura de Paula. A turma do primeiro ano foi chegando aos poucos, entre eles Oziel Moura de Paula, irmão de Otoniel. Uma semana depois estourou a revolução militar, o que impediu da maioria dos alunos matriculados para o primeiro ano chegarem. Nossa turma do primeiro ano foi a menor de todos os anos da escola: oito alunos! Ao meu lado se sentava Oziel e Elienai Cabral. Vestíamos paletó, camisa branca e gravata e o uso de sapatos era obrigatório. Nada de chinelos.
A partir daí a missionária Doris contava, então, com três jovens afinados na música: Otoniel, Oziel e Elienai, que, juntamente com Eliel, que já estava graduado formaram um dos mais belos quartetos do Instituto Bíblico.
Doris Lemos, esposa do pastor Kolenda possuía um ouvido absoluto, a ponto de identificar para nós, ao piano, em que tom estava cantando um pardal, e também tinha uma capacidade didática para ensinar música. Em dois anos os alunos aprendiam a solfejar e a fazer arranjos em quatro vozes sem o uso de instrumento algum, apenas usando as notas das pautas musicais na clave de Sol, Dó e de Fá. Apenas usando a técnica. Cantar em semitons é difícil, imagina, então cantar dividindo o semitom, arte que somente ela conseguia. Uma das alunas que entrou para o Instituto Bíblico em 1965 foi Otília de Paula, irmã da dupla Otoniel e Oziel, e, a partir daí a irmã Doris contava com uma voz soprano médio feminina. Anos depois ingressou na escola o Oséias de Paula.  

A música, “Eu Vivia no Pecado”

No ano de 1964 – último ano de Otoniel em Pinda, um grupo de americanos visitou o Instituto Bíblico numa turnê missionária. Encantados com os brasileiros, eles pediram ao Otoniel e Oziel que cantassem uma música bem brasileira. Para surpresa de todos, Otoniel pegou seu violão e, ao lado do poeta Oziel entoaram, para nós, alunos e para os jovens americanos, “eu vivia no pecado”. Nascia ali a primeira canção para o disco compacto que haveria de estourar no Brasil, começando pelo programa do Josias Meneses na rádio Copacabana do Rio de Janeiro, e nascia ali a dupla Otoniel e Oziel que revolucionaria a igreja Assembleia de Deus no Estado do Rio de Janeiro com a fundação da União da Mocidade das Assembleias de Deus do Estado do Rio – UMADER – que participei por vários anos até que viajei para os Estados Unidos.
A partir de 1966 os dois não pararam. Houve, sim, um intervalo de um ano em que Oziel precisou prestar serviço militar e foi enviado pelas forças brasileiras para a República Dominicana.
Depois postarei algo mais. 
 

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Pastores e a política governamental


Pastores e a política governamentalJoão A. de Souza FilhoAgosto de 2018 

Muitos pastores defendem seu ingresso na política usando as figuras de José e de Daniel que se tornaram homens públicos orientando reis e imperadores, mas esquecem que José e Daniel nunca se candidataram a cargos políticos: Eles foram alçados por Deus em tempos especiais com finalidade e propósito: José, foi levantado por Deus para salvar a futura nação de Israel, representada pela família de Jacó da fome. Daniel, passou por cinco imperadores e Deus o levantou para cuidar e proteger a nação de Israel no exílio babilônico e persa.Acompanho a vida, os discursos e os projetos de políticos cristãos em Brasília, tanto católicos, como protestantes, evangélicos, pentecostais e neopentecostais e, faço esta distinção para que o leitor também saiba a raiz de cada um deles. Lamentavelmente, alguns deputados tentam fazer do plenário da câmara um auditório religioso, defendendo interesses religiosos e até falando em línguas! Uma aberração!, mas, outros defendem os interesses do povo brasileiro.Pastor, se você se candidatou a algum cargo político, entregue sua credencial ou renuncie ao pastorado; se você tem algum título de ofício, como evangelista, pastor, apóstolo, patriarca, semideus ou o que quer que seja, não use mais o seu título de ofício, porque de agora em diante você terá que dividir seu tempo com o trono de Deus e o de Satanás, e, obviamente, por ser zeloso Deus não gostará de ter frequentando seu trono alguém que divide espaço com o diabo. Você terá que se dividir entre dois livros: A Bíblia e o Príncipe, de Maquiavel. O primeiro escrito pelo dedo de Deus durante 1600 anos usando pessoas por ele escolhidas; o segundo escrito por Maquiavel que sabia, como poucos, ensinar como deve se fazer política.    Não esqueça que a política é tão sórdida e diabólica que Jesus expulsou a Satanás; e os crentes a buscam. Apresento, a seguir, os dez mandamentos de Maquiavel para os políticos, já que ele é o autor da ciência política:
1. Zelem apenas pelos seus próprios interesses.2. Não honrem a mais ninguém, além de vocês mesmos.3. Faça o mal, mas finja que faz o bem.4. Cobice e procure obter tudo o que puder.5. Mostre-se miserável .6. Seja duro e bruto.7. Engane o próximo toda vez que puder.8. Mate seus inimigos e, se for necessário, os seus amigos.9. Use da força, em vez da bondade ao tratar com o próximo.10. Pense exclusivamente na guerra.Com algumas exceções todos os reis gregos, depois de brilhante carreira foram perseguidos até a morte.Você deve saber circular entre a política e as finanças, e precisa entender que política é dinheiro circulando. É sedução, presentes, suborno, interesses no poder, tramas etc. Tivemos antigamente o imperialismo militar das nações mais fortes, que reduziam os países livres à condição de escravidão. Em seguida, tivemos o imperialismo econômico das grandes nações que conquistavam o mercado para seus produtos. Dentro desses germinou um imperialismo ainda maior, inimigo de todos os povos: O capitalismo. Ele não tem pátria; não tem sentimentos. Devora as nações e os grandes capitalistas usam seu dinheiro para oprimir os povos, seja através do sistema que os enriquece ou através do socialismo comunista. Portanto, não existe sistema político bom!
Em alguns países o capitalismo passou a atentar contra os princípios da civilização cristã, quais sejam, o princípio da família, o princípio da nação e o princípio da igreja. O capitalismo é o permanente proletarizador das massas. O capitalismo, na sua marcha avassaladora, penetra no organismo das nações a fim de aniquilá-lo. Começa, portanto, na escravização dos governos. Essa escravização escraviza um povo; não manda exércitos, mas banqueiros; assumem as mais variadas atitudes para iludir o povo. (Não existe sistema político eficaz, quando é político). O socialismo, política atual do Brasil pretende tirar dos que têm, para dar aos que nada tem, enquanto seus líderes acumulam patrimônio e riqueza tanto aqui quanto no exterior.
Deus mesmo falou ao povo de Israel que ao elegerem um rei, eles deveriam ceder seus jovens para o serviço militar; que as donzelas e moços teriam que trabalhar para abastecer a família real e que a cobrança de impostos afetaria a vida da nação. No reino de Salomão parte da riqueza do palácio foi auferida pela alta carga de impostos sobre o povo e pelo trabalho escravo de milhares e milhares de pessoas.A política exclui a religião. Num partido político unem-se elementos heterogêneos nas convicções religiosas, e homogêneas na convicção política. A fidelidade ao partido anula a fidelidade religiosa. Dessa forma, o crente político nega a Cristo. Este fato está registrado na Bíblia, quando todos os anciãos vieram a Samuel, em Ramá, e pediram-lhe que constituíssem um rei que os julgasse. Deus falou a Samuel: “Não é a ti que eles rejeitam, mas a mim” (1 Sm 8.1-7). É abominável aos olhos de Deus que um crente honre um feiticeiro por causa da política, sendo que a Bíblia manda extirpá-los (Ex 22.18).Partido político é aliança partidária. E as alianças excluem Deus do cenário e trazem para a corte o príncipe deste mundo, Satanás!  


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Jerusalém: A eterna capital de Israel

Jerusalém: A eterna capital de Israel

João Antônio de Souza Filho


O templo de Herodes o qual Jesus profetizou que seria destruído até os fundamentos é retratado nessa moeda que representa a segunda revolta judaica no ano 135 d. C. Apesar de haver sido destruído 65 anos antes, testemunhas ajudaram a confeccionar a moeda. Ressalte-se que nesta época nem havia mulçumanos no mundo; estes só apareceram à época de Maomé no século VII.
Apesar das escrituras mencionarem Jerusalém em textos anteriores ao reinado de Davi, seu nome não era Jerusalém, mas Jebusalém. O nome Jerusalém ficou unificado nas Escrituras a partir da tradução do hebraico para o grego, a chamada Septuaginta.
Vejamos um pouco da história:
Abraão, quando voltava da batalha com os 318 nascidos em sua casa, passou pelo vilarejo chamado Salém, onde governava um rei-sacerdote de nome Melquisedeque a quem Abraão entregou o dízimo dos despojos de guerra. Anos depois esteve no monte Moriá, para sacrificar seu filho Isaque, então com vinte e cinco anos de idade, é o que afirma Flávio Josefo. Este historiador judeu afirma tratar-se do mesmo lugar, onde no cimo do monte Davi construiria o templo.[1]  A cidade, portanto, existe desde tempos remotos, dois mil e seiscentos anos, mais ou menos antes de aparecer Maomé e sua religião que conquistaria o mundo da época pela espada, e não pela paz.
Quando Josué entrou em Canaã o rei de Jerusalém, Adoni-Zedeque saiu a guerrear com os israelitas com a ajuda de outros reis. O texto de Josué é claro: “Não puderam, porém, os filhos de Judá expulsar os jebuseus que habitavam em Jerusalém; assim ficaram habitando os jebuseus com os filhos de Judá em Jerusalém, até o dia de hoje” (Js 15.63), o que implica afirmar que estavam os jebuseus lá até a época em que o livro foi escrito. Os jebuseus eram uma tribo canaanita, e não era dos descendentes de Ismael.
O livro de Juízes menciona que os israelitas, depois, puseram fogo à cidade (Jz 1.8). “Ora, os filhos de Judá pelejaram contra Jerusalém e, tomando-a, passaram-na ao fio da espada e puseram fogo à cidade” (Jz 1.8).
Apesar de haver sido incendiada os jebuseus a reedificaram e habitaram nela até os dias de Davi. Jerusalém, que se chamava Jebusalém até os dias de Davi era um entrave para a vida social dos israelitas, até que Davi a conquistou definitivamente. Flávio Josefo explica que a parte baixa de Jerusalém ficou destruída, enquanto a fortaleza na parte alta se manteve inalterada. [2]
 Ao que parece o nome Jerusalém só foi dado à cidade depois da conquista de Davi em 2 Sm 5.6-12. Documentos antigos atestam que era conhecida como Urushalem ou Shalem nome dado em homenagem ao deus cananita simbolizado pela estrela Vênus. Shalem, que quer dizer completude (isto é, que tem tudo, paz, harmonia, riqueza), e no decorrer dos anos se tornou Shalom – paz. Urushalem que significa “fundação de Salém” se tornou Jerusalém, ganhando agora o prefixo- Je. É a tradução da palavra hebraica YAH, na realidade uma abreviação da palavra Yahweh. Davi, ao conquistar a cidade acrescentou o nome do seu Deus à cidade, no português com o prefixo “Je”. Shalem era um deus cananita simbolizado por Vênus e ao lado de Ashtar e Moloque eram deuses que representavam também a Baal.
Quando Saul, o primeiro rei de Israel morreu, Davi estabeleceu seu governo em Hebrom durante sete anos e seis meses, e em Jerusalém “reinou trinta e três anos sobre todo o Israel e Judá”, num total de quarenta anos (2 Sm 5.4-5).
Davi rapidamente uniu as tribos de Israel e com uma série de brilhantes vitórias, estendeu o reino de Israel da Fenícia no Oeste ao deserto da Arábia no Oriente. Do rio Orontes no Norte ao golfo de Ácaba, no Sul. Depois do reino estabelecido, Davi trouxe a arca da aliança para a cidade de Jerusalém, até então uma fortaleza habitada pelos jebuseus.
A fortaleza dos jebuseus foi conquistada graças a astúcia e habilidade de Joabe, sobrinho de Davi que, a partir daí se tornou o comandante do exército de Davi. O texto bíblico diz:  
“Depois partiu o rei com os seus homens para Jerusalém, contra os jebuseus, que habitavam naquela terra, os quais disseram a David: Não entrarás aqui; os cegos e os coxos te repelirão; querendo dizer: David de maneira alguma entrará aqui. Todavia David tomou a fortaleza de Sião; esta é a cidade de David. Ora, David disse naquele dia: Todo o que ferir os jebuseus, suba ao canal, e fira a esses coxos e cegos, a quem a alma de David aborrece. Por isso se diz: Nem cego nem, coxo entrará na casa. Assim habitou David na fortaleza, e chamou-a cidade de David; e foi levantando edifícios em redor, desde Milo para dentro” (2 Sm 5.6-9).
Com um punhado de homens Joabe entrou pelo aqueduto subterrâneo, surpreendeu a guarda dos Jebusitas, abriu os portões da cidade e a conquistou para Davi. A partir dali o local passou a ser chamado de Sião ou Cidade de David (2 Sm 5.6-9).
Desde a época do rei Davi, portanto, Jerusalém se tornou a capital dos israelitas. Flávio Josefo, o historiador judeu escreveu: “Desde os tempos de Abraão, que consideramos como autor de nossa raça, era chamada Salém ou Solima: E alguns afirmam que assim a chama o mesmo Homero, pois a palavra templo significa em hebreu segurança ou fortaleza e haviam se passado quinhentos e quinze anos, desde que Josué tinha repartido as terras conquistadas aos cananeus até o dia em que tomou Jerusalém, sem que jamais os israelitas dela tivesse podido expulsar os jebuseus” [3]
 Esta é a parte da história política dos israelenses que fizeram de Jerusalém sua capital. Todos os demais reis de Judá depois de Davi fizeram de Jerusalém a capital da nação. Assim, vimos Jerusalém no plano geopolítico. Agora vejamos a cidade no plano escatológico.

História política e religiosa

Vimos, assim, a história geopolítica da cidade de Jerusalém e sua importância para os israelitas. Mas, como as nações não faziam diferença entre política e religião – até mesmo aqui no Brasil em que religião e política era praticamente uma só coisa – Jerusalém se tornou um tipo ou figura espiritual de uma cidade eterna, invisível, nos céus.
Essa transição do terreal para o espiritual pode ser entendida no lamento de Jesus quando, avisado pelos fariseus que Herodes queria mata-lo e que ele deveria fugir da cidade, Jesus exclamou: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e não o quiseste! Eis aí abandonada é a tua casa. Pois eu te declaro que desde agora, de modo nenhum me vereis, até que digas: Bendito aquele que vem em nome do Senhor” (Mt 23.37-39 cf. Lc 13.31-35).
Nesta declaração, Jesus está afirmando que no futuro os habitantes de Jerusalém o aclamarão: “Bendito aquele que vem em nome do Senhor”. Jesus, então, coloca Jerusalém no plano escatológico, isto é, no plano futuro de Deus para Israel. Em Mateus 24 Jesus profetiza a destruição de Jerusalém e avisa que aquela geração que o ouvia não morreria sem ver aquele acontecimento.
Para os irmãos do primeiro século, falar em Jerusalém celestial era perfeitamente compreendido, porque logo entendiam a alegoria.
De fato, Nero, imperador romano no ano 67 d.C. enviou Vespasiano e seu filho Tito para guerrear contra Jerusalém. Em Roma, Nero havia ordenado a execução de Pedro e a decapitação de Paulo. Queimara a cidade e colocara a culpa nos cristãos.
Depois de três anos de cerco à cidade, Jerusalém caiu nas mãos dos romanos. Vespasiano, avisado da morte de Nero foi chamado para Roma para ser o imperador, e seu filho Tito se encarregou de destruir a cidade. Não estava nos planos de Tito a destruição do templo, apenas a captura da cidade, mas os sacerdotes militantes se refugiaram no templo que foi atacado e destruído. Flávio Josefo, judeu, que havia passado para o lado dos romanos e servia de intérprete para os romanos foi testemunha ocular deste acontecimento. Ao ver o ouro escorrer pelas pedras do templo incendiado os romanos derrubaram pedra por pedra para tomar o ouro como despojo, cumprindo-se, então a palavra de Jesus àquela geração: “Não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada” (Mt 24.2). Aos que querem se aprofundar na história daqueles dias que antecederam a destruição da cidade recomendo a leitura de História dos Hebreus, Livro Quinto, Sexto e Sétimo a partir da página 648 na edição do ano 1990 da CPAD.
A partir dessa época Jerusalém, destruída, se tornou a vergonha da nação de Israel.

Jerusalém e a escatologia bíblica

Jerusalém, então, deixa seu plano terreal e passa a figurar – exatamente isso; como figura ou tipo – no plano celestial, ora sendo vista como Jerusalém terrena, ora sendo vista como a cidade celestial. Paulo, o apóstolo, em sua epístola aos gálatas, falando da caduquice da lei usa a cidade de Jerusalém como metáfora para falar das duas alianças: A aliança do Antigo Testamento e a do Novo Testamento. Usando Agar, a escrava de Abraão que lhe gerou Ismael e, consequentemente os árabes como uma alegoria, ele afirma que a lei é como Agar, no monte Sinai na Arábia, e que, pode ser comparada à atual Jerusalém que está em escravidão – espiritual – com seus filhos. E, depois diz: “Mas a Jerusalém lá de cima é livre, a qual é nossa mãe” (Gl 4.22-31). Que tipo de escravidão, tinha Paulo em mente ao escrever aos gálatas? A cegueira espiritual.
À semelhança de Jesus, Paulo retira de Jerusalém o status terreal e a apresenta na esfera espiritual. Quando se olha para Jerusalém terreal deve-se sempre ter em mente que ela é uma figura da igreja no plano espiritual. Não estou, de maneira alguma tirando o mérito da Jerusalém terreal, que é linda, que emociona os cristãos e lhes inspira, mas enfatizando que a velha cidade e seus conflitos no plano natural apontam também para a Jerusalém celestial que é a igreja. Os acontecimentos na Jerusalém natural, obviamente são reflexos dos acontecimentos na Jerusalém celestial. Este é um tema a ser abordado futuramente.
Tomemos como exemplo o texto da carta aos hebreus que, ao falar de Abraão, o homem da fé, diz: “Porque (Abraão) aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador (...) Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial (...) porquanto lhes preparou uma cidade” (Hb 11.10, 16). Que cidade Abraão aguardava? Jerusalém? Esta já existia geograficamente na pequena aldeia de Salém onde Abraão se encontrou com o rei-sacerdote Melquisedeque (Gn 14.18-24).
Para entender qual cidade Abraão visualizou e almejou alcançar, no plano escatológico, deve-se levar em conta que a cidade que tem fundamentos é a igreja, cujo fundamento é Jesus Cristo. “Sobre esta pedra”, disse Jesus, “edificarei a minha igreja” (Mt 16.18). É sobre este fundamento, Cristo, que os apóstolos edificaram a igreja. Paulo afirma que lançou o fundamento, como “prudente construtor” e que o fundamento é Cristo (1 Co 3.10-11). Mais adiante diz: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2.20). Portanto, a única cidade que tem fundamentos sólidos é a igreja, porque Jesus é o fundamento da igreja, assim como uma pedra exerce duplo papel nas construções antigas: Serve de pedra angular, pela qual todo edifício é alinhado e como fundamento sobre a qual se edifica o prédio.
Assim também Pedro, ao falar da igreja, fala desse fundamento, a pedra angular, eleita e preciosa. Este texto de Pedro é esclarecedor porque coloca Jesus Cristo e a igreja alinhados, assinalando que Jesus é a pedra angular, e nós, casa espiritual, como pedras que vivem:
“chegando-vos para ele, pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas, para com Deus eleita e preciosa, vós também, quais pedras vivas, sois edificados como casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo. Por isso, na Escritura se diz: Eis que ponho em Sião uma principal pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido. E assim para vós, os que credes, é a preciosidade; mas para os descrentes, a pedra que os edificadores rejeitaram, esta foi posta como a principal da esquina, e: Como uma pedra de tropeço e rocha de escândalo; porque tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados” (1 Pe 2.4-8).
Uma pedra, afirma Pedro, pode servir de edificação e de tropeço. Jesus serve para a edificação dos que nele creem, os que não acreditam nele, tropeçam na pedra ou são por ela esmagados! Da mesma maneira em relação a Jerusalém que está em Israel: Os que nela veem se cumprir o plano escatológico são edificados; os que nela não creem são por ela esmagados.
Assim, no plano escatológico Jerusalém terreal é vista como figura da Jerusalém celestial que é a igreja. A cidade que tem fundamentos que Abraão aguardava é a igreja. Para entender melhor este tema é importante ler o Apocalipse de João e sua visão da cidade celestial:
“E vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que descia do céu da parte de Deus, adereçada como uma noiva ataviada para o seu noivo. E ouvi uma grande voz, vinda do trono, que dizia: Eis que o tabernáculo de Deus está com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Ap 21.2-3). A igreja aparece no plano espiritual adornada como noiva, para ser entregue ao noivo.
Percebe-se, aqui a presença de uma cidade celestial, a nova Jerusalém, lugar em que Deus habitará com o seu povo. Trata-se de algo celestial, não da Jerusalém atual, muito pequena para conter a presença de tão grande Rei. Depois, o anjo convidou a João para ver a cidade: “Vem, vou lhe mostrar a noiva, a esposa do Cordeiro”. E que diz o texto? “E levou-me em espírito a um grande e alto monte, e mostrou-me a santa cidade de Jerusalém, que descia do céu da parte de Deus, tendo a glória de Deus...” (Ap 20.9-10).
Quem é visto nas escrituras do Novo Testamento como noiva ou esposa do Cordeiro? A igreja passa a ser usada por Deus no plano espiritual, como instrumento de sua vontade, e nela, agora, estão judeus e não judeus, isto é, todos os povos, incluindo os inimigos naturais de Israel. “Para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Ef 3.10-11).
A igreja, hoje, e não o Israel natural se tornou “casa de Deus... vivo, coluna e baluarte da verdade” (1 Tm 3.15).  O autor aos hebreus, outra vez nos conduz ao sentido de Jerusalém no plano espiritual: Mas tendes chegado ao Monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, a miríades de anjos; à universal assembleia e igreja dos primogénitos inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados; e a Jesus, o mediador de um novo pacto, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel” (Hb 12.22-24).
Novamente aqui a expressão, “Jerusalém celestial”. Que cidade, então, João viu no Apocalipse? A cidade celestial, a Jerusalém, a igreja! Que cidade Abraão viu lá no início de sua caminhada de fé? A igreja ou Jerusalém celestial.
Concluindo, pois, a Jerusalém daqui, no plano natural continua a ser uma figura da Jerusalém celestial. O que acontece no plano natural é consequência dos acontecimentos no plano espiritual. A reconquista da cidade velha pelos judeus no ano de 1967 exerceu influência no mundo espiritual. Na ocasião, os judeus tiveram a oportunidade de destruir o atual Domo da Rocha e construir ali o seu templo. Mas, num acordo feito sete dias depois com os árabes, os líderes da época, Ben-Gurion e Moshe Dayan decidiram que aquela parte, num raio de cem metros ficaria sob o controle da Jordânia. Houvessem eles tomado a decisão de ficar com aquela área, certamente aquele acontecimento teria influenciado a escatologia atual. Deus tem lá seus planos!
E, como é que Jesus vê o atual estado espiritual de Jerusalém natural? A resposta ele mesmo a dá em Apocalipse 11.8 ao falar das duas testemunhas – ou oliveiras conforme Zacarias 4.11-14, “os dois ungidos que assistem junto ao Senhor de toda a terra. Apocalipse, diz: “E o seu cadáver ficará estirado na praça da grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado” (Ap 11.8).
Portanto, o próprio Jesus é quem afirma que, atualmente, Jerusalém terreal se assemelha a Sodoma e ao Egito, lugares nada recomendáveis nas Escrituras. O primeiro, por ser cidade permissiva; o segundo por ser país símbolo da escravatura. Assim, quando alguém visitar Jerusalém, tenha em mente que nos dias de hoje não é uma cidade tão santa, porque, a Jordânia, país onde se deram muitos acontecimentos no AT como a peregrinação do povo, o monte Ebal, o monte Nebo, as águas de Meribá, a serpente levantada no deserto – para citar essas – e o ministério de Elias, o lugar de seu arrebatamento, são acontecimentos que se deram na Jordânia e o povo árabe de lá considera seu país uma terra santa!
Assim, quando se afirma que Jerusalém é cidade santa, não se deve esquecer que existem outros lugares considerados santos, como o país da Jordânia, mas que, aos olhos de Cristo ele não os vê assim!
 Aos que pensam que o templo dos judeus, ao ser construído será importante, devo afirmar que escreverei sobre o tema mais adiante.








[1] JOSEFO, Flávio, CPAD p 59
[2] JOSEFO, Flávio, CPAD p 135
[3] JOSEFO, Flávio, História dos Hebreus, CPAD p 177